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Prof. Milena Prado

Alfabetização & Psicopedagogia 🧠✨

A educação se inicia no útero materno: o que estamos ensinando antes mesmo do nascimento?

A educação se inicia no útero materno: o que estamos ensinando antes mesmo do nascimento?

Publicado em 09/08/2026 18:38

Há uma frase que encontrei durante a leitura de A Fascinante Construção do Eu, de Augusto Cury, que ficou por muito tempo ecoando em meus pensamentos:

“A educação se inicia no útero materno.”

Como pedagoga, estou acostumada a pensar na educação como algo que acontece na escola, nas brincadeiras, nas interações, nas histórias que contamos, nas experiências que proporcionamos às crianças e, principalmente, nas relações que construímos com elas.

Mas essa leitura me fez olhar para um momento ainda anterior.

E se a educação começasse antes mesmo do primeiro colo?

E se as primeiras experiências de uma criança começassem a ser construídas ainda durante a gestação?

Essa reflexão me tocou profundamente.


Antes de ensinar, precisamos acolher

Quando pensamos em educação, muitas vezes pensamos em ensinar cores, números, letras, histórias, regras e comportamentos.

Mas, para mim, existe uma aprendizagem que vem antes de tudo isso: a aprendizagem das relações, do afeto, da segurança e do vínculo.

Durante a gestação, a mãe passa por inúmeras transformações físicas e emocionais. É um período de expectativas, descobertas, medos, inseguranças, sonhos e também de muitas mudanças.

Ao ler Cury, comecei a pensar que cuidar desse ambiente emocional também pode ser uma forma de cuidado e preparação para a chegada do bebê.

Isso não significa imaginar que a mãe precisa viver uma gravidez perfeita, sem tristeza, preocupação ou momentos difíceis. Isso seria injusto e impossível.

Significa compreender que o bem-estar materno também merece atenção.

A mãe também precisa ser cuidada.

E talvez essa seja uma das primeiras grandes lições que eu tiraria dessa reflexão: não podemos falar sobre o desenvolvimento de uma criança sem olhar também para quem está cuidando dela.


As 12 atitudes que me fizeram refletir

No livro, Augusto Cury apresenta 12 atitudes que considera importantes para as mães durante a gestação. Eu as compreendi não como uma lista de cobranças para uma mãe cumprir perfeitamente, mas como possibilidades de cuidado e reflexão.

1. Cuidar da alimentação

Uma alimentação adequada durante a gestação é uma das formas de cuidado com a própria mãe e com o bebê.

Isso me fez pensar que cuidar de uma criança começa também quando cuidamos das condições necessárias para que ela se desenvolva.

2. Valorizar o descanso e o sono

O descanso também precisa fazer parte da gestação.

Vivemos em uma sociedade que muitas vezes transforma o cansaço em motivo de orgulho. Mas a gestação nos lembra que o corpo precisa de pausas.

Descansar não é perder tempo.

É cuidar.

3. Evitar álcool, cigarro e outras drogas

Essa orientação está relacionada diretamente aos cuidados de saúde durante a gestação.

Mais do que uma regra, vejo como uma forma de proteção e responsabilidade diante de uma vida que está em desenvolvimento.

4. Proteger-se, na medida do possível, de situações de estresse

Essa foi uma das ideias que mais me chamou atenção.

Cury destaca a importância de a gestante evitar conflitos, discussões e situações que possam gerar tensão excessiva.

É claro que ninguém consegue controlar tudo o que acontece ao seu redor. A vida continua acontecendo durante a gravidez.

Mas talvez possamos escolher melhor quais batalhas realmente precisamos enfrentar.

5. Criar momentos de contato com o bebê

A ideia de acariciar a barriga, conversar e estabelecer uma relação afetiva com o bebê me parece muito significativa.

Mesmo antes de segurar a criança nos braços, a mãe já pode começar a construir uma relação com ela.

É como dizer:

“Eu sei que você está aqui. Eu estou esperando por você.”

6. Cantar e conversar com o bebê

Essa é uma atitude simples, mas carregada de significado.

Imagino uma mãe cantando para o bebê enquanto arruma suas coisas, toma banho ou simplesmente descansa.

Talvez não seja sobre a música ser bonita.

É sobre a voz, a presença e o vínculo.

É sobre começar a construir uma história entre duas pessoas que ainda nem se encontraram fora do útero.

7. Ler e buscar experiências que favoreçam o desenvolvimento

Outro ponto apresentado pelo autor é a importância de oferecer estímulos e experiências enriquecedoras durante a gestação.

Essa ideia me fez pensar no quanto o ambiente influencia nossas experiências desde muito cedo.

Não se trata de transformar a gestação em uma agenda de atividades ou de acreditar que é preciso fazer tudo perfeitamente.

É simplesmente criar oportunidades de contato com experiências tranquilas, significativas e positivas.

8. Cultivar momentos de tranquilidade

A gestante também precisa de momentos para respirar, desacelerar e olhar para dentro.

Pode ser uma música, uma leitura, uma caminhada, um momento de silêncio ou simplesmente alguns minutos longe da correria.

Às vezes, cuidar de uma criança começa quando a mãe consegue cuidar um pouco de si mesma.

9. Estimular a observação, a imaginação e a interiorização

Essa ideia conversa muito com aquilo em que acredito como educadora.

A criança precisa de espaço para imaginar, observar, criar e sentir.

E o livro propõe que a própria mãe também cultive essas experiências durante a gestação.

Isso me fez perceber algo interessante:

como queremos ensinar uma criança a imaginar o mundo se nós mesmos vivemos constantemente presos à pressa?

10. Sonhar e construir planos para o bebê

Toda criança começa a existir também nos sonhos de alguém.

Antes de nascer, ela já pode ter um nome, um quarto, uma história imaginada, uma família esperando por ela.

Planejar, sonhar e imaginar o futuro do filho pode ser uma maneira de fortalecer esse vínculo.

E aqui existe uma diferença importante: sonhar não significa determinar quem a criança deverá ser.

É sonhar com uma vida na qual ela possa descobrir quem é.

11. Cuidar dos pensamentos pessimistas

Essa talvez seja uma das reflexões mais delicadas.

Durante a gestação, podem surgir medos, inseguranças e pensamentos difíceis.

Não acredito que uma mãe precise se culpar por sentir medo ou tristeza.

Pelo contrário.

Acredito que ela precisa encontrar espaços para falar sobre aquilo que sente, buscar apoio e não permanecer sozinha diante de seus pensamentos.

Cuidar da mente também é uma forma de cuidado.

12. Valorizar a própria autoestima

Por último, Cury fala sobre a importância de a mãe reconhecer sua beleza e acolher as transformações do próprio corpo.

E essa ideia me parece especialmente importante.

O corpo da mulher muda.

A barriga cresce, o peso muda, a aparência muda e muitas vezes surgem inseguranças.

Mas esse corpo também está realizando algo extraordinário.

Ele está criando espaço para uma nova vida.

Por isso, olhar para si mesma com carinho também faz parte desse processo.


Como pedagoga, essa leitura me fez pensar ainda mais na infância

Depois dessa reflexão, passei a olhar para a educação infantil de uma maneira ainda mais ampla.

Quando uma criança chega à escola, ela não chega “em branco”.

Ela chega carregando experiências, vínculos, histórias, emoções e formas de perceber o mundo que começaram a ser construídas muito antes daquele primeiro dia de aula.

Por isso, acredito tanto em uma educação que acolhe.

Uma criança que chora precisa ser escutada.

Uma criança que sente medo precisa de segurança.

Uma criança que está brava precisa aprender a reconhecer sua emoção.

Uma criança que não consegue se expressar precisa encontrar um adulto disposto a ajudá-la.

E tudo isso também é educação.


Uma reflexão que levo comigo

Ao terminar essa parte do livro, fiquei pensando que talvez uma das maiores responsabilidades dos adultos seja compreender que educar não é apenas transmitir conhecimentos.

Educar é participar da construção de uma pessoa.

E essa construção começa muito antes das primeiras palavras.

Começa antes dos primeiros passos.

Começa antes do primeiro dia na escola.

Por isso, quando penso na frase “a educação se inicia no útero materno”, não penso em uma mãe que precisa ser perfeita.

Penso em uma mãe que também precisa ser acolhida.

Penso em uma família que precisa de apoio.

Penso em vínculos que começam a ser construídos antes mesmo do nascimento.

E penso, principalmente, no quanto nós, educadores, precisamos compreender que quando uma criança chega até nós, sua história já começou há muito tempo.

Nós não somos o início dessa história.

Somos parte dela.

E que privilégio é poder participar da construção de tantas pequenas histórias.