O que Piaget me ensinou sobre o desenvolvimento da criança
Publicado em 09/08/2026 18:47
Quando comecei a estudar Psicologia do Desenvolvimento, uma das teorias que mais despertou minha atenção foi a de Jean Piaget.
Como pedagoga, sempre me interessei por entender não apenas o que uma criança aprende, mas principalmente como ela aprende.
E foi justamente isso que encontrei nos estudos de Piaget.
Ele nos ajuda a compreender que a criança não é um pequeno adulto que simplesmente “sabe menos”. Ela possui uma maneira própria de pensar, interpretar, experimentar e compreender o mundo.
Essa percepção mudou muito a minha maneira de olhar para a infância.
Porque, quando compreendemos o desenvolvimento infantil, passamos a ter mais paciência com aquilo que a criança ainda não consegue fazer e, ao mesmo tempo, mais sensibilidade para perceber tudo aquilo que ela já é capaz de construir.
0 a 2 anos — Estágio Sensório-Motor
O primeiro estágio do desenvolvimento proposto por Piaget acontece aproximadamente do nascimento aos 2 anos.
É uma fase em que a criança conhece o mundo principalmente através do corpo e dos sentidos.
- Ela toca.
- Segura.
- Leva objetos à boca.
- Joga.
- Bate.
- Sacode.
- Observa.
- Repete.
E nós, adultos, muitas vezes olhamos para essas ações e pensamos: “Ela está apenas brincando.”
Mas não.
Ela está aprendendo.
Quando um bebê joga um brinquedo no chão várias vezes, por exemplo, ele não está necessariamente tentando nos irritar. Ele pode estar descobrindo relações de causa e efeito.
“Se eu soltar, cai.”
“Se eu bater, faz barulho.”
“Se eu esconder, desaparece.”
“Se eu procurar, encontro.”
Pouco a pouco, a criança começa a compreender que os objetos continuam existindo mesmo quando não estão diante dos seus olhos — aquilo que Piaget chamou de permanência do objeto.
É também nessa fase que surgem importantes conquistas motoras e cognitivas.
O bebê começa a controlar melhor o próprio corpo, explorar o ambiente, desenvolver movimentos intencionais e construir as primeiras formas de representação.
Como educadora, essa fase me faz pensar em algo muito simples:
para o bebê, brincar é uma forma de pensar.
Por isso, oferecer objetos seguros para explorar, diferentes texturas, sons, movimentos e oportunidades de interação é oferecer possibilidades de aprendizagem.
2 a 7 anos — Estágio Pré-Operatório
É aqui que encontramos grande parte das crianças da Educação Infantil.
E talvez seja um dos períodos que mais precisamos compreender como educadores.
A criança começa a desenvolver a linguagem, a imaginação, o faz de conta e a capacidade de representar mentalmente aquilo que não está presente.
- Uma caixa pode virar um carro.
- Um pedaço de tecido pode virar uma capa de super-herói.
- Uma boneca pode virar um bebê.
- Uma colher pode virar um avião.
E, para mim, existe algo mágico nisso.
A criança começa a transformar o mundo através da imaginação.
É também nesse período que aparece o chamado egocentrismo cognitivo descrito por Piaget.
Isso não significa que a criança seja egoísta ou mal-educada.
Significa que ela ainda está desenvolvendo a capacidade de compreender plenamente a perspectiva do outro.
Por isso, uma criança pequena pode ter dificuldade para entender que outra pessoa pensa, sente ou enxerga uma situação de maneira diferente dela.
Ela ainda está construindo essa habilidade.
E isso muda completamente a maneira como interpreto determinados comportamentos infantis.
Quando uma criança diz:
“Ele pegou meu brinquedo, ele é mau!”
talvez ela ainda não consiga compreender completamente o ponto de vista do colega.
Ela precisa de um adulto que a ajude a construir essa compreensão.
É também nessa fase que o pensamento ainda é bastante intuitivo.
A criança pode acreditar que um copo alto possui mais água do que um copo baixo, mesmo quando viu a mesma quantidade sendo transferida de um recipiente para outro.
Isso acontece porque determinados conceitos lógicos ainda estão em desenvolvimento.
E aqui existe uma reflexão muito importante para nós, professores:
nem tudo aquilo que a criança ainda não compreende deve ser tratado como erro.
Algumas coisas são simplesmente construções que precisam de tempo, experiências e oportunidades para amadurecer.
7 a 11 anos — Estágio das Operações Concretas
Por volta dos 7 anos, começa um novo período.
A criança passa a desenvolver formas de pensamento mais organizadas e lógicas.
Mas existe uma palavra muito importante aqui:
concreto.
Ela consegue compreender melhor aquilo que pode observar, manipular, comparar e experimentar.
É nesse período que conceitos matemáticos e lógicos podem ganhar maior significado.
A criança começa a compreender melhor:
- classificação;
- ordenação;
- conservação;
- relações de quantidade;
- sequência;
- comparação;
- reversibilidade do pensamento;
- relações de causa e consequência.
Ela consegue perceber, por exemplo, que determinada quantidade de água continua sendo a mesma mesmo quando colocada em recipientes de formatos diferentes.
Também começa a compreender melhor que uma ação pode ser mentalmente “desfeita”.
Se 5 + 3 = 8, por exemplo, ela começa a compreender que 8 - 3 = 5.
O pensamento vai ficando mais organizado.
E isso me faz pensar no quanto as experiências concretas continuam sendo importantes na escola.
Não basta falar sobre matemática.
Podemos oferecer objetos para contar.
Não basta explicar classificação.
Podemos separar, organizar e comparar materiais.
Não basta falar sobre medidas.
Podemos medir objetos reais.
A criança aprende melhor quando consegue relacionar o pensamento com aquilo que vivencia.
A partir dos 11 ou 12 anos — Estágio das Operações Formais
Chegamos então à adolescência.
Nesse período, segundo Piaget, o indivíduo começa a desenvolver a capacidade de pensar de maneira mais abstrata.
- Já não depende exclusivamente de situações concretas.
- Pode trabalhar com hipóteses.
- Imaginar possibilidades.
- Questionar ideias.
- Refletir sobre situações que ainda não aconteceram.
- Pensar sobre conceitos abstratos.
É o momento em que perguntas como:
“E se...?”
“Por que isso acontece?”
“Será que poderia ser diferente?”
“Qual seria a consequência?”
ganham cada vez mais espaço.
O adolescente começa a conseguir elaborar hipóteses e raciocinar sobre possibilidades.
E essa transformação também modifica a relação com o conhecimento.
Ele não quer apenas saber o que acontece.
Começa a querer compreender por que acontece.